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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Silva lança o melhor disco ao cantar Marisa e prescindir de obra autoral


Texto: Mauro Ferreira
Fonte: G1. Globo.com
Edição: Jorge Luiz da Silva
Serrinha, BA (da redação Itinerante)
  






Silva canta Marisa (Slap / Som Livre) é o melhor disco de Silva. A soberania do álbum na discografia do cantor, compositor e músico capixaba Lúcio Silva é consequência natural de o artista ter à disposição, pela primeira vez, repertório coeso e inspirado. A obra autoral de Silva tem sido superestimada e vinha perdendo fôlego a cada álbum autoral lançado por ele nos últimos quatro anos. O primeiro, Claridão (2012), é o melhor dos três álbuns autorais do artista, músico que faz tecnopop com ecos da década de 1980, mas sem nostalgia, no tom dos dias de hoje. O segundo, Vista pro mar (2014), já denunciara irregularidade autoral escancarada no terceiro, Júpiter (2015), frágil álbum no qual Silva gravitou em torno da canção popular romântica com apenas duas músicas que perseguiram a perfeição pop, Eu sempre quis e Feliz e ponto, parcerias com o irmão Lucas Silva (Feliz e ponto ajudou muito a repercutir o disco por conta do antológico clipe a favor das pluralidades sexuais).


Desdobramento do show Silva canta Marisa Monte, apresentado em 2015 na cidade de São Paulo (SP) e reproduzido em dezembro daquele mesmo ano em programa do Canal Bis, o álbum Silva canta Marisa é coerente com o discutível giro estético de Júpiter. Em Júpiter, Silva ambicionou o posto de cantor pop romântico, ora ocupado por Tiago Iorc, colega do selo Slap. Mas tinha somente duas boas canções para se candidatar ao trono.

Em Silva canta Marisa, disco produzido em estúdio pelo artista com o guitarrista Rodolfo Zamor, o cantor tem à disposição 12 canções da boa cepa pop de Marisa. Uma é inédita e abre oficialmente a parceria de Lúcio Silva e Lucas Siva com a cantora e compositora carioca. Gravada com a voz lapidada de Marisa, Noturna (Nada de novo na noite) é joia moderna que faz brilhar bela veia melódica em fina sintonia com uma letra zen. Obra-prima do disco, Noturna soa como canção contemporânea que parece ter vindo de algum lugar do passado. Mas é, curiosamente, a única música que vem do presente, não tendo figurado no roteiro do show de 2015.

A propósito, Silva afirmou, em rede social, que o disco não é recorte deste show de 2015 feito com Rodolfo Zamor (guitarra), Hugo Coutinho (bateria e programações eletrônicas) e Jackson Pinheiro (baixo) sob direção artística de Marcus Preto. Contudo, disco e show soam indissociáveis, por maior que tenha sido o burilamento das canções no estúdio. Das músicas antigas, Ainda lembro (Marisa Monte e Nando Reis, 1991) é a que resulta mais interessante com balanço pop black retrô que remete ao som ouvido nas FMs na década de 1970. Já o groove que pauta Eu sei (Na mira) (Marisa Monte, 1991) é mais seco.

Álbum referencial na vida de Silva, que o ganhou de presente aos 12 anos, Memórias, crônicas e declarações de amor ( 2000) tem rebobinadas as canções Não é fácil (Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes, 2000), Não vá embora (Marisa Monte e Arnaldo Antunes, 2000) – levada na cadência de pop reggae aprimorada na condução de Verdade, uma ilusão (Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Marisa Monte, 2010) – e Tema de amor (Carlinhos Brown e Marisa Monte, 2000), única das 12 músicas já em si menos sedutora.

Cantor eficiente, Silva jamais desconstrói o cancioneiro de Marisa. Estão lá, intactas, melodias e letras que já foram gravadas com maior brilho pela autora. O que Silva faz, ao cantar o repertório da artista, é ambientá-lo no universo sintético que pauta a obra que ele vem pavimentando nestes anos 2010. É nesse clima que figuram faixas como Infinito particular (Marisa Monte e Arnaldo Antunes, 2006).

Se Pecado é lhe deixar de molho (Carlinhos Brown, Cezar Mendes e Marisa Monte, 2002) toca em tempo de maior delicadeza, Beija eu (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Arto Lindsay, 1991) sintetiza a arquitetura pop da canção nos beats de Silva. A única abordagem que causa leve estranheza é a de O bonde do dom (Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, 2006), samba que soa modernoso ao ser jogado no trilho eletrônico.

Ao fechar o disco, Na estrada (Marisa Monte, Nando Reis e Carlinhos Brown, 1994) cai no suingue e sinaliza que Silva seguiu basicamente o mesmo caminho ao cantar a obra pop de Marisa Monte. Só que Marisa é, além de cantora referencial, compositora geralmente inspirada. A obra autoral da artista faz com que o álbum Silva canta Marisa tenha o que sempre faltou aos discos autorais de Silva: um repertório homogêneo, sem altos e baixos. Resta saber se, ao cantar Marisa em disco, Silva ascenderá ao posto que ambiciona... (Cotação: * * * 1/2)

(Créditos das imagens: Silva e Marisa Monte em foto da página oficial de Silva no Facebook. Capa do álbum Silva canta Marisa. Silva em foto de Jorge Bispo)

  


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